quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Previsão da língua


Polandesamente falando: o "gerundismo" impregna a mente e o falar desde 2007. Já são quase cinco anos de contágio. Cura para o ano que vem? Não é o que nos diz o horóscopo.

domingo, 23 de outubro de 2011

Informativo ao extremo


Polandesamente falando: que pena, queria tanto ir ao banheiro às 4:28 da madrugada com o shopping fechado...

domingo, 16 de outubro de 2011

Tecnologia natural


Polandesamente falando: essa cafeteria foi além e trouxe o (notório) tablet reciclável.

sábado, 15 de outubro de 2011

Teto de papel


- Um espetacular apartamento de 54 m2 sairá, em média, R$ 730 mil. Isso depende do andar, naturalmente. A altura acompanha o investimento - dizia o corretor de vendas com desdém. - Também temos os luxuosos Lady Laura com 113 m2, saindo a R$ 1,5 milhão cada.

A plateia, misto de ternos impecáveis, idade avançada e plásticas, aplaudia e ouvia interessada as informações sobre sua futura provável moradia. Lá no meio, mais simples, mas não mal-trajada, havia uma mulher um pouco mais jovem e sorridente.

- Oi? - dizia levantando o braço para chamar a atenção do palestrante. - Oi! - gritou. O homem, incomodado com a interrupção, levantou uma das sobrancelhas e respondeu:

- Pois não?

- Tenho uns cuponszinhos aqui. Sabe aqueles do site de promoção? Consegui trezentos e quarenta. Cada parente comprou um. Até uns amigos meus ajudaram...

O corretor, incrédulo, escutava tamanha ousadia.

- Putz! Vou pagar uma pechincha por essa bagaça e ainda encontrar o Rei! Há, que máximo, meu!


Polandesamente falando: o cupom ponto com nos permite atingir níveis gastronômicos, turísticos, almejados e desconhecidos, por exemplo. É preciso aplicá-lo ao imobiliário para que seja percebida a necessidade de desvalorizá-los, tornando-se acessíveis? Os influentes nos Horizontes poderiam ser exemplos, não apenas Reis, não?

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A lesma Josué


A lesma Josué estava irritada. Diariamente andava quilômetros para conseguir alimento, mais especificamente, um pedaço de planta. As refeições tornavam-se cada vez mais difíceis.

Teve então uma brilhante ideia. Foi até uma concessionária e roubou um carro. Mas não qualquer um. Josué tinha classe. Afanou uma Maserati. Feliz, sentou no banco de couro e ficou olhando para o painel. Como dirigiria o veículo já que membros lhe faltavam?

Mas isso era apenas um pequeno detalhe para o abusado molusco. Com o guincho da seguradora, levou sua aquisição até um supermercado. Entrou na loja e seguiu para o departamento de brinquedos.

Lá estava ela. Abriu o pacote e arrancou seus braços e pernas. Não sentiria falta, era uma Barbie; as crianças gostariam de qualquer jeito: com braço, sem braço, de cabelos loiros, sem cabelos.

Colocou os acessórios de plástico. O novo Josué correu e pulou. Funcionavam. Entrou novamente em seu importado e acelerou como nunca. Foi para o parque próximo em poucos segundos; logo, cortou a cidade. Saciou a fome, mas não o desejo recentemente criado pela aventura. Próximo passo? Roubar um cortador de grama.


Polandesamente falando: não irrite a lesma Josué. A Barbie quem o diga.

domingo, 25 de setembro de 2011

Ah, o amor... (parte 9 de...)


Sentou e recostou-se na rede fugindo da luz. Seu balanço, feito as ondas visíveis à frente, o levava em pensamentos. Como sentia falta dela. Seu toque, seus olhos, seu mundo.

Recordava claramente o início de tudo. Estavam no mesmo avião, mesmo hotel, ela, no quarto ao lado. Usou uma desculpa ridícula. Sorriu ao lembrar-se da frase. Perguntara-lhe como fazia para chegar em uma rua, que por ela também desconhecida era.

Não precisava ir para lugar algum na verdade, só queria conhecer a bela vizinha. E que forma mais idiota, pensava agora. Ela respondeu-lhe que não sabia, mas, bondosa, poderia tentar descobrir para ajudá-lo.

O lugar era longe, a conversa comprida, e as semelhanças, grandes. Encantou-o com inteligência e delicadeza; com charme e intensidade. A vida provou-lhe que o acaso não existia, e o destino, certeza.

Voltou para sua cidade, acompanhado. Transbordavam sorrisos mútuos, amavam-se. Os dias avançaram do hotel ao altar; da cumplicidade, ao céu.

Lembrava nitidamente do fim. Estavam no mesmo carro, ela, do lado errado. A carreta veio da direção contrária. Cúmplice do desgraçado tempo, não conseguiu agir antes. Viu pela última vez seu lindo rosto e sua doce voz dizendo “eu te amo”.

Chorou em silêncio. Olhou novamente para o mar tranquilo. Contrapunha seu coração há muito transtornado.

Polandesamente falando: mergulhar nas águas do esquecimento é afogar-se na turbulência das memórias.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

sábado, 17 de setembro de 2011

O porquinho do Peru


O animal de asas aterrissou. Era bem maior que aquele acariciado embaixo de sua blusa de moletom, escondido cuidadosamente. Despistou os seguranças antes de partir só para levá-lo. Não poderia simplesmente deixá-lo em uma gaiola. Era seu querido Ted. Não apenas amigo, um companheiro.

Foi assim desde que o ganhou de sua mãe em seu aniversário de sete anos. Ela havia prometido um bichinho. Achou que o presente seria um cachorro. Quando o viu de pronto, estranhou, não sabia o que era. Parecia uma mistura de rato com castor. Mas depois que notou aqueles grandes olhos e o formato arredondado de seu corpo ficou encantada. Cabia em sua mão. Fofinho demais.

Andando pelo aeroporto, observava os diferentes traços faciais e vestimentas. Lima era desconhecida por todos da família, mas estavam entusiasmados com o novo lar. Seu pai havia sido transferido a trabalho para a cidade e a esposa e sua filha pequena – a dona do porquinho - o acompanharam na trajetória.

Chegando ao estacionamento, o pai assoviou para um táxi. Indicou no papel o endereço desejado.

- Bueno – disse o motorista colocando a primeira marcha.

No decorrer do percurso a garota observou vários pôsteres de animais parecidos com o seu pelos comércios das ruas. Falou baixinho:

- Olha que legal, Ted! O pessoal adora os porquinhos aqui! – o animal lambeu seu dedo em contentamento.

Chegaram à casa da hospedeira. Tia Francisca os instalaria até que encontrassem moradia própria. Na sala principal móveis de madeira e panos bem coloridos compunham o cenário. Era tudo muito diferente de seu apartamento cinzento e minúsculo em São Paulo.

- Buenos dias – cumprimentou a tia, abraçando o pai da garota com força.

- Por Dios, que alegria! Trouxeram um presente pra mim! – Falou a peruana, olhando animada para o animal e puxando-o da menina. – Que macio! - disse, acariciando-lhe. - Ficará delicioso com um pouquinho de pimenta e alecrim! – Ted tremeu.

Cozido de porquinho da índia no Peru era comum. Os restaurantes o serviam de diversas maneiras; era bastante procurado.

A filha arregalou os olhos e, espumando, arrancou-lhe da assassina de bichinhos de estimação. Correu pela casa apressada, fugindo. Francisca a perseguiu.

A mãe se jogou contra a homicida latina, mas esta se desvencilhou do golpe frustrado.

- Volte aqui, niña! – falou a aniquiladora, tentando acelerar com seus chinelos de pano pelo corredor. Não viu o pé de seu sobrinho semilevantado. Tropeçou e caiu batendo a cabeça na parede. Desmaiou. Ele riu, vitorioso.

A filha aproveitou o deslize e ganhou mais vantagem. Passou pela cozinha e viu a panela com água fervente. No balcão próximo havia um pedaço grande de carne. Deduziu ser frango. Não pensou duas vezes. Jogou-o na panela.

Já reanimada do acidente, Francisca, confusa, perguntou aos visitantes:

- Onde está aquele delicioso porquinho da índia?

- Porquinho? – responderam os três em uníssono. – Você bateu a cabeça muito forte hein, Francisca? – falaram rindo, enquanto a garota escondia Ted atrás das costas.


Polandesamente falando: o parentesco é ignorado pelo distinto costume não-aceito, quando o que mais importa é o proteger.

domingo, 11 de setembro de 2011

Poste Grande Paulista


Polandesamente falando: em Vargem Grande Paulista, maiores ainda são os postes. Isso porque não coube na foto. Concordo com o morador: "Não quero este poste aqui!", agora, se fosse vagem...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A chuva (a)guardada


A cidade muda para recebê-la. Pernas agitadas, descompassadas. Sua chegada é tão expressiva que os habitantes se preparam para presenciá-la. Vestem-se com um distinto equipamento, num ritual típico. Com ele, esquivam-se de gotas, enxurradas. O objeto criado especialmente para o líquido límpido serve de guardião, dos humanos.

Um nome e uma função díspares. O dever de desviar descendente aquoso contra a finalidade nominal do armazenar.

O utilitário nos faz mergulhar na ambiguidade do serviço material. Ao mesmo tempo que serve de proteção pluvial, seu design não favorece sua função. Muitas vezes ficamos ensopados, guardando a chuva na roupa e calçados, vezes na mochila; assim mostrando a conotação de reter água.


Polandesamente falando: é hora de trocar seu nome ou sua função?

domingo, 4 de setembro de 2011

5 sentidos


Avistou-a ao longe. Viu o rosto guardado em seu coração. Viu novamente a saudade ir embora.

Ouviu seu nome clamado em melíflua voz. Presenciou novamente o som do viver.

Envolveu-a num abraço carinhoso. Suas mãos se recordavam o ponto exato alcançado em suas costas e de seu cabelo macio. Sentiu seus contornos. Sentiu novamente o acolhimento que há tanto se fôra.

A doce mistura de flores e baunilha brindou-lhe o respirar. Sentiu sua composição odorífera natural. Sentiu novamente o ar que conhecia há anos.

Entregou-lhe a entrada da alma. Sentiu novamente em seus lábios o velho - mas nunca esquecido - gosto de seu amor.


Polandesamente falando: as formas básicas de perceber o mundo nos proporcionam a preciosa vivência memoriada.

domingo, 21 de agosto de 2011

Ah, o amor... (parte 8 de...)


"Parabéns pra você... Nesta data querida... Muitas felicidades..." - cantavam.

Fechou ainda mais os olhos e, mentalmente, pediu: "Oi? Cê tá me ouvindo? Aqui é a Fernandinha da Rua dos Trabalhadores, sabe? Então, hoje é meu aniversário e aniversário é pra fazer pedido, né? Pelo menos era o que minha mãe dizia. Ah... nunca te peço nada, cê sabe, mas sei lá, queria sua ajuda nesse próximo ano... Vou fazer um pedido, certo? Sei que deve ter vários, mas pode dar prioridade pro meu? Sim? Lá vai então. Queria, quer dizer, quero encontrar um homem inteligente, divertido, engraçado e que me ame do jeito que sou. Pode ser? Ah, e que não tenha chulé e nem ronque. Ninguém merece... se não for pedir muito, claro. É... tenho mais alguns desejinhos básicos. Não, Fernanda, um só tá de bom tamanho!" - abriu os olhos e soprou a vela.

(3 meses depois...)

- Roberta?! Tô apaixonada! - dizia ao telefone. Sim, ele é tudo de bom. Tudo o que pedi a Deus e muito mais. Tãoooooo lindo!

- Mas, amiga, me conta, onde conheceu ele? "Ceis" já saíram?

- O Flávio é novo no meu trabalho. Ainda não saímos, mas relaxa; eu tenho um plano. Amanhã logo depois do expediente vou até a mesa dele e convido pra uma cerveja. Fato.

(No dia seguinte, quase no fim do horário comercial)

Fernanda arrumava suas coisas. Um olho organizava o material na gaveta e o outro supervisionava Flávio. As mulheres eram privilegiadas. Enxergavam tudo: as coisas da frente, as de trás, as dos lados e as que estavam até em outras cidades. Incrível. Concentrada, não percebeu o homem parado ao lado de sua mesa.

- Fernandinha? Queria falar com você...

- Ahãm... - pronuncionou, sem sequer virar a cabeça.

- A gente se conhece há 4 anos...

- Ahãm... (e o olho fixo na presa de social)

- Preciso botar isso pra fora...

- Certo...

Fernanda viu Flávio levantar-se e pegar sua jaqueta de couro.

- Gustavo, desculpa, tenho que ir nessa. Depois a gente se fala!

- Mas...

Ela já havia levantado. Andava apressada para alcançá-lo. Passou por alguns biombos e avistou-o. Cutucou seu ombro. Ele se virou.

- Oi? - sorriu o homem. Fernanda suspirou.

- Oi, Flávio! Tava pensando aqui... você é novo na empresa... o que acha de irmos tomar uma cerveja pra eu te explicar mais sobre os setores e tal?

- Pô, valeu, Fê, mas tô indo encontrar minha namorada - e saiu andando.

Fernanda, com cara de TPM, voltou irritada para sua mesa. Não era possível. Ele não tinha aliança. "Que mundo mais injusto", pensava. Ao lado de sua bolsa havia um bilhete com seu nome. Estranhou, mas sem paciência para descobrir o conteúdo, colocou-o no bolso da blusa e foi embora.

Já em casa, abriu a porta com força, batendo-a ao atravessá-la. Jogou o casaco na poltrona de canto e começou a andar em círculos pela sala. O papelzinho de Gustavo voou e caiu no centro do tapete.

- Merda! Merda! Merda! - resmungava. Sua raiva era tanta que chutou o primeiro objeto que viu pela frente. Azar, pois era a mesa de madeira mais dura já feita.

- Ai! Ai! Ai! - Sentou-se na poltrona, massageando o pé. Olhou para frente e notou o bilhete. Estava escrito: "Para Fernanda". Desdobrou-o e leu: "Querida Fernanda, faz mais de 4 anos que nos conhecemos. Você sempre foi uma pessoa especial e encantadora. Nos tornamos amigos e você sabe o quanto gosto de ti. Só que de uns tempos pra cá esse sentimento foi mudando. Preciso que você saiba. Não posso viver sem te dizer... eu te amo. Me dá uma chance de te fazer feliz?"

As palavras de Gustavo revolviam-se com o acontecido a pouco. Devaneou por uns 20 minutos. "Nossa, ele me ama...", disse finalmente a si mesma. Ele era uma pessoa incrível, um amigo querido... e só.

- Mas eu te pedi, poxa! - gritou para Ele, levantando-se, abrindo os braços e batendo-os contra o quadril em queixa.

- E exatamente assim o fiz - informou A voz. Fernanda achou estranho Ele estar falando com ela, mas nem ligou. Queria explicações. Respondeu:

- Fez nada! Fez errado isso sim! Eu gosto do outro, pôxa vida!

- Você não pediu direito, minha filha - retrucou bondosamente.

- Não pedi direito? NÃO PEDI DIREITO? Eu lembro muito bem! "...quero encontrar um homem inteligente, divertido, engraçado e que me ame do jeito que sou..." - repetiu o desejo feito.

- Sim, faltou um pequeno detalhe.

- Ah, é? Qual? - disse enraivecida.

- Que você o amasse também - finalizou O Sábio.


Polandesamente falando: o amor, vezes é triângulo, mas nem sempre equilátero. O maior desafio não é amar; é aprender a lidar com o amor.

domingo, 31 de julho de 2011

AAnônimoS


Desdobrou a toalha e jogou-a ao alto com cuidado. Vestiu a mesa de listras e utensílios. Os copos estavam perfeitamente posicionados ao lado esquerdo de cada prato e os talheres à direita. Aprontara com extremo empenho. Gostava de uma boa apresentação, a comida ficava mais gostosa.

Sorriu. Estava tudo impecável.

(Toc, toc, toc)

- Querido, vá ver quem é, por favor!

Fernando olhou pelo buraco da fechadura. Os sapatos pretos que já conhecia aproximavam-se. Abriu.

- Oi, papai! – disse, abraçando-o.

O homem retribuiu o gesto bagunçando-lhe os cabelos lisos. Andou até a sala e colocou sua pasta no sofá perto da tevê. O cheiro delicioso levou-o à cozinha.

- Boa noite, meu bem – cumprimentando a esposa e beijando-lhe os lábios.

- Boa noite! Como foi o trabalho?

- Ah, foi bem agitado. Teve um cliente que... Mas quantas vezes eu já disse pra não mexer naquela gaveta, mulher?! Que inferno! – Berrou, puxando a toalha da mesa num movimento rápido.

O barulho dos talheres tocando o chão e dos pratos quebrando distanciou o garotinho do desenho animado. Foi até a cozinha.

- Mas Rodolfo, eu só queria deixar a mesa bonita!

- NÃO INTERESSA!!! Ninguém pega a toalha da minha mãe!

Fernando, assustado, correu e escondeu-se embaixo da cama tapando os ouvidos. Seu quarto era o abrigo para dias frequentes como aquele. Por que brigavam tanto? Nunca entendera. Apesar de seus 7 anos, já questionava a estupidez da discussão por tolices.

Ao lado da poeira amiga, no piso frio, um quadrado rosado. Curioso, apanhou o objeto e levou-o para perto de seus olhos. Parecia um remédio, mas era atraente como uma bala. Como fôra parar ali? Os medicamentos ficavam no banheiro.

Continuou olhando, interessado. Os gritos perduravam. A dor por seus pais brigarem era intensa. Rasgou o envelope com os dentes e pôs o conteúdo na boca. “Diferente... gostoso” – pensou.

A doçura fazia-o sentir-se melhor. Agora sabia para onde correr e, a partir daí, começou a rezar para que brigassem sempre.


Polandesamente falando: diversos refúgios estão presentes na vida para o alívio sintomático do sofrer. Alguns são automáticos, imperceptíveis e mais perigosos que o próprio problema em si.

domingo, 24 de julho de 2011

Refeição? Ação!



Está cada vez mais difícil alimentar-se pelas ruas de São Paulo. Momentaneamente deixo a qualidade das refeições oferecidas pelos estabelecimentos e atenho-me ao ato.


O homem pré-histórico privava a vida dos animais para cevar-se. A atenção era somente no bater do coração da vítima e no roncar estomacal de si próprio.

Hoje acontece a matança humana. Cotoveladas, empurrões, gritos; tudo por causa de uma mesa: o objeto sagrado. É o novo ritual da alimentação. As horas antigas dedicadas à execução tornam-se o tempo de espera pela tão almejada comida. Alimenta-se os nervos; para só assim, em seguida, saciar realmente a fome.

Polandesamente falando: as presas não mais são animais da floresta; são os outros caçadores modernos, os dos objetos venerados.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Frutose vital



Observou-a tão vistosa. Já havia visto outras, mas não como aquela. A cerca envolta tornava-a quase sagrada. O vento, quando batia em suas folhas, fazia do movimento, hipnótico. Diariamente o garoto passava por aquela rua. Poderia fazer um caminho mais curto, menos sinuoso, mas fazia questão de ingressar naquele transe. Como era bela! As outras tinham seu charme, mas essa, um inexplicável encanto. Talvez fosse sua forma mais arredondada que as outras árvores, ou até mesmo seu colorido gracioso. O que importava é que as mangas que ali pendiam exalavam tal magia que, relutar, era impossível. Só de olhá-las, fantasiava seus sabores. A possível doçura acariciando sua língua deixava-o atônito e incitava-o à descoberta.

Viu um dos frutos caídos, sua metade inferior, escura, fazia notável tal fato. Por que estava ali isolado? Por que não junto aos outros? Por que despencara? O que o fez? Talvez alguém tivesse esbarrado no caule, provocando o acidente. Talvez o forte vento o tivesse feito. Talvez fosse apenas a ação da natureza, que decidiu assim. O menino não sabia; só desejava ardentemente recolocá-la na bela árvore e admirá-la até suas retinas exaurirem-se.


Polandesamente falando: A criação de expectativas nos leva a um nível irreal da consciência. Formula-se um estereótipo e, aquilo almejado, pode ser extremamente decepcionante ou sublime. A realidade torna-se dolorosa e indigerível, quando o que mais se quer é absorver apenas o sonho.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Romaria moderna



- Filha, acho que é um bom momento para você ir comigo e seu pai à romaria.

- Valeu, mas nem curto romã...

- Romã, minha querida? - a mulher balança a cabeça negativamente em lamentação a tamanho absurdo. - Você sabe o que é uma romaria?

- Ah, tem a padaria, que vende pão, a perfumaria, que vende perfume; então, tipo, a romaria não é uma lojinha que vende romã? Saca? Aquela frutinha meio vermelha e engraçada com bolinhas de sagu dentro?


Boquiaberta, a mãe faz uma careta, desaprovando a asneira de sua própria criação.

- Julia, Julia... você precisa frequentar mais a igreja! Romaria é um tipo de peregrinação em que você se dirige a um lugar sagrado, para pagar promessas, agradecer pelas coisas ou, simplesmente, por ser devoto. Tem gente que vai a pé, outros de carro... eu e seu pai vamos a cavalo.


- Cavalo? Que brega!

- É, ué! Seu tio Francisco vai nos emprestar.

- Tô imaginando aqui você e o pai com roupinhas santas de jockey... batinas cavalgando, hahaha, hilário!

- Engraçado será quando seus pedidos não forem atendidos. Você fica zombando de coisa séria, menina!


- Fico nada... - a garota solta um risinho e insiste - Tô imaginando vocês uniformizados com camisetas de "Jesus salva!" indo comprar romã na venda, hahaha!

- JULIA!

- Ah, qual é? Troço chato do caramba!

- É para o seu bem.

- Se eu disser que vou, você para de me encher?


- Sim... mas só se for no Torrãozinho.

- Quê?

- Seu meio de transporte. Pedi um a mais - a mulher abriu um enorme sorriso.

- Ah, vai se f... Não posso ir de avião? Tá no céu, é santo, pronto!

- Não querida, temos que seguir a tradição.

- Qual é, mãe!? Ninguém segue mais isso não! Se bobear vão transmitir ao vivo pela net, e, quer saber, vou é ver no celular. Haja saco pra ir nesse frio prum lugarzinho cheio de gente estranha e "romana". Aliás, deveria chamar Salvaria...

- Ai, Jesus amado... me salva! - finalizou a mãe.



Polandesamente falando: se as tradições modernizarem-se, continuarão sendo tradições? Modificações em padrões centenários causam descrença? A extrema devoção impede reformulações? Costumes religiosos são eternamente imodificáveis? Ou a crença, como um todo, é mais importante que a forma e as alternativas para consegui-la?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Examine minuciosamente


(Não. Prefiro marcar na minha testa. Pode ser?)



(Seguindo a seta... tá explicado!)


Polandesamente falando: simples exames podem ser altamente engraçados.

domingo, 29 de maio de 2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A vingança dos imóveis



Colocou o fone de ouvido e deu largada no shuffle.

- Ligar... Fat burn... Start - falou consigo.

Começou a andar lentamente; o ritual dos cinco minutinhos de aquecimento.

- "Born to be wild... Born to be wild..."- cantava.

Olhou ao redor. Alguns alunos corriam, outros levantavam peso. Uma senhora olhava fixamente para a televisão enquanto movimentava os pedais de sua bicicleta. Curioso, voltou a atenção para a caixa luminosa, estava no canal de esportes. O correspondente comentava, em closed caption, sobre o jogo do Peixe.

Lia, interessado, enquanto iniciava a corrida e, para não cair, segurou nas barras laterais do aparelho. Olhou para o painel a fim de cronometrar seu desempenho, mas ao invés dos tradicionais números e quilometragens, os tracinhos fluorescentes compunham uma frase: "Limite máximo de velocidade: 60km/h"

- Quê? - disse, estranhando e parando a música.

Tomáz esfregou os olhos, estava delirando? Ignorou o aviso e aumentou o passo, apertando o botão. O aparelho vibrou fortemente e soltou: "Eu disse: limite máximo de 60km/h. Entendeu agora, infeliz?"

- Que se dane o limite! Me multa então! - falou, intensificando ainda mais o exercício.

"Ah, você quer correr!?"

As pernas fortes de Tomáz não foram suficientes para a insanidade do aparelho. Soltava "Há! Há! Hás!" enquanto trucidava as articulações do jovem.

- Pare! Pelo amor de Tauron! – esbaforiu.

"Ué? Não queria queimar calorias? Mexe essas coxas de boi reprodutor!"

Estava em seu limite. Nunca havia corrido tanto e tão rápido. Usain Bolt tinha ficado no chinelo e lá onde ajudaria São Judas a encontrar as botas, ou as sapatilhas. Parecia uma centopéia transgênica.

"Tá cansado? Eu te ajudo!"

Deu a última gargalhada malcriada e prendeu o rapaz pelos tornozelos, com suas garras metálicas.

- Desgraçaaaaaaaaaaaaaaaaaada! - gritou, enquanto era retirado do plano.

A máquina chacoalhava-o como coqueteleira de barman, a dois metros do chão.

- Me solta! Me solta! - esperneava.

“Não!”

- Por favor!

"Tá bom!"

Tomáz bateu com tudo os glúteos na esteira.

"Você que pediu."

Aquilo doeria muito quando seu corpo esfriasse. Olhou atordoado para o aparelho. Nem frases malucas ou avisos mortais. Era um simples painel de esteira de academia. Não entendeu nada.


Polandesamente falando: objetos são aparentemente inofensivos e estáticos, e nitidamente maléficos quando irritados.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Entregando vidas



A poluição causava irritação aos seus olhos. Estava aumentando de tal maneira que em dias de Sol nem precisaria mais de óculos escuros. O constante soar das buzinas era extremamente irritante. Já havia se acostumado com o barulho ensurdecedor das grandes avenidas, um mau sinal para seu otorrino.

Mas o pior era quando São Pedro resolvia trabalhar. E olha que ele andava empolgadíssimo com horas extras esses dias. Só podia estar sendo remunerado. Sim, estava. E naquele exato momento.

A cidade parou diante da forte chuva, menos, Joaquim. Não podia simplesmente adentrar um restaurante e aguardar pelo cesso do dilúvio. Não podia ligar o "que se dane um resfriadinho" e pular feliz pelas poças ou andar de bicicleta espirrando água em todo mundo. Não. Era um carteiro, pelo amor de Deus! Tinha responsabilidades extremas com a sociedade. E se aquela mulher parada ali no trânsito da Berrini estivesse ansiosa pelo resultado de seu exame? E se a filha daquela outra tivesse lhe enviado um cartão postal da Finlândia dizendo que estava tudo bem e que sentia saudades?

Apesar de cansativo, era gratificante. Nada recompensava mais para ele do que ouvir um "obrigado!" sincero quando entregava uma correspondência. Claro que me refiro às pessoais. Nada de mala direta chatérrima de banco ou catálogo de sapatos. Os tabloides de mercado e os folhetinhos de candidatos a vereador não são entregues pelo Joaquim, não o culpe!

Sem escolha, vestiu sua capa de chuva e cobriu com cuidado o pacote de cartas. Só faltava uma, era para a Conceição. Uma jovem? Uma mulher mais vivida? Não sabia; só que o endereço era familiar, conhecia bem aquela região, tinha parentes lá.

Andou com dificuldade pelo conglomerado de pessoas na calçada. Como era injusto só as ambulâncias terem sirenes! Ia continuar seu rumo quando ouviu: "Uéuéué! Uéuéué! Uéuéué!..." Havia Ele atendido suas preces? Não. O carro branco com o sinal da cruz pedia passagem ao caos no asfalto. Um dos zilhões de automóveis tentou numa manobra arriscada abrir caminho. Nem o Senna conseguiria fazê-la. Abriu foi um belo buraco no carro da frente. O motorista, lesado, saiu às pressas, espumando:

- Seu filho da pu*& do ca^lh*! Não tá vendo que tá tudo parado, porr*%!? - gesticulava com uma das mãos, enquanto a outra formava um volume dentro do bolso de seu paletó.

- Des... Des... Desculpa! Eu não te vi! Tava preocupado em sair da frente da ambulância - respondeu o jovem, tremendo.

- Des... Desculpa!? DESCULPA!? - disse Fernando, ironizando e ficando cada vez mais irritado e vermelho.

Joaquim olhando a cena, perplexo, decidiu tentar ajudar. Dirigiu-se até os dois homens e disse:

- Calma, rapazes. Tudo se...

E a sirene continuava a gritar, a chuva a cair e os motoboys a buzinar.

- CALMA? CALMA!? - explodiu o motorista do carro batido.

- É, tudo se ajeita - disse Joaquim, aproximando-se dos dois.

Fernando retirou a mão do bolso. Não estava vazia. Apontou a arma para o rapaz e atirou.

- Não!!! - disse Joaquim, interceptando.

A bala atingiu seu ombro esquerdo, perto do coração. Um dos enfermeiros da ambulância segurou o criminoso e o outro correu para ajudar o ferido.

- Deixe-me ajudá-lo, senhor.

- Não. Eu preciso entregar esta carta.

- É claro que precisa, mas depois que salvarmos sua vida - rebateu, segurando-lhe o antebraço são.

- Não! - gritou, desvencilhando-se e esmurrando o enfermeiro.

- Seu maluco! Deixe eu te ajudar!

Mas Joaquim já havia começado a voltar para a calçada. Ajeitou o saco de cartas e segurou firmemente o ferimento para estancar o sangue. Andou o mais rápido que pôde. O enfermeiro disparou em seguida, mas o carteiro já havia se infiltrado na multidão, desaparecendo.

A rua Guararapes não estava longe, apertou o passo enquanto a dor o pressionava. Sabia que era praticamente insano o que estava fazendo, mas não podia simplesmente ir para o hospital. E se estragassem o envelope? E se o jogassem fora? Não permitiria.

Contornou uma das praças da avenida e encostou na árvore próxima para respirar. A dor aumentara e queimava sua pele, fazendo da chuva, ácida. Olhou para o céu negro e rezou. Abaixou a cabeça com cuidado e viu à frente: "RUA GUARARAPES", leu em voz baixa.

Atravessou o gramado e procurou o número 167. Havia decorado, tinha facilidade com algarismos. Quando pequeno só tirava notas altas em matemática e em educação física também, como podemos comprovar.

Avistou-a. Era uma casa simples de tijolos e um quintal cheio de plantas que giravam. Na verdade, era Joaquim que enfraquecia, não estava mais suportando. Encontrou a campainha escondida embaixo de uma folha e, com muito esforço, tocou-a.

Seus olhos demoravam cada vez mais para abrir. Era como se estivesse sonhando. Via seus pais assistindo televisão e ele pequeno brincando com seu carrinho vermelho. Ouvia sua música preferida. Sentia o cheiro delicioso do bolo de chocolate que sua avó fizera em seu 13º aniversário. Viu uma senhora no jardim da residência, e não era sua avó.

- Pois não, moço?

Ela não percebeu que o carteiro estava machucado. Talvez pela escuridão da rua ou, possivelmente pela chuva torrencial que ajudava a disfarçar o sangramento.

Joaquim largou o ferimento. Abriu a sacola. Sua mão tremia. Retirou o pequeno envelope com letras tão apressadas e, com cuidado para não molhá-lo, estendeu para o outro lado do portão. A senhora segurou a carta, ia aproximar os óculos dos olhos, mas quando viu o remetente, eles caíram. Olhou lacrimejante para o precioso visitante e disse:

- Obrigada.

Joaquim, cambaleando, arranjou forças para sorrir. Parou e esqueceu a dor. Parou e, simplesmente escutou o mais belo som. Aquele velho e confortável "obrigado!" foi a última coisa que ouviu.


Polandesamente falando: qual sua importância como indivíduo? A individualidade de cada um é tão forte a ponto de ser a prioridade de outro alguém? Certas coisas possuem extremo significado, como corresponder à algo. E tem pessoas neste mundo que distribuem essas preciosidades. Não é incrível?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Atitudes florescentes


- Bom dia, senhor presidente - disse um outro senhor, batendo as mãos já limpas em seu avental de trabalho na esperança de ficarem melhores, estendendo-as.

- Bom dia - respondeu o excelentíssimo, correspondendo o cumprimento - Por favor, me chame de Fernando.

- Em que posso ajudá-lo, Fernando?

- Faça o que sabe fazer de melhor. Deixe esse lugar bem bonito, como ela fôra.

- Eu o farei com muito prazer e honra, senhor.

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Orquidário Ruth Cardoso
http://www.ambiente.sp.gov.br/vernoticia.php?id=1047

Oficina de orquídeas
http://vejasp.abril.com.br/noticias/parque-villa-lobos-oferece-oficina-gratuita-de-orquideas


Polandesamente falando: apesar de todos os problemas mundanos, ainda encontramos pessoas praticantes de atitudes agradáveis aos olhos do planeta. Sr. Trisca, que a beleza de seu trabalho floresça em mais jardins, lugares especiais adubados por seu carinho.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A sociedade num serviço


Congelou. Não queria entrar. O suor escorria levando consigo a coragem restante. A porta à frente causava-lhe transtornos e calafrios. Tinha medo de atravessá-la; não pelo que o aguardava, mas por temer recordar sua dor. Tentava esquecer, precisaria adentrar o lugar de qualquer maneira. As poucas horas complementares que tinha vieram-lhe à mente. Poderia ir ao teatro ou exposições, mas não havia tempo suficiente, só isso salvar-lhe-ia o ano quase perdido.

A casa amarela não estava longe. Caminhou lentamente por paralelepípedos sombreados pelas árvores altas do estacionamento até chegar ao destino: a grande porta de madeira. Esticou o braço para tocar a campainha, mas a maçaneta ganhara vida antes de conseguir finalizar o movimento.

- Bom dia, meu jovem! - disse a funcionária. - Siga-me, por favor.

Acompanhou seus passos por um corredor comprido e mal iluminado enquanto observava ao redor. Quartos assimétricos com diversas camas amontoadas compunham a travessia. Contou quinze. Estavam vazios.

- Você fica por aqui – disse distanciando-se.

A mulher com roupas simples o levara até um saguão. Senhores e senhoras em cadeiras de rodas, muletas e andadores compunham o cenário. Uns conversavam entre si, outros olhavam para cima focando as plantas penduradas, ou apenas o nada.

O lugar era deprimente, não por decadência ou simplicidade da construção e da mobília, nem mesmo pela precariedade dos aparelhos médicos, mas sim pela massa invisível de agonia que envolvia a realidade - ou seu pequeno nível - dos residentes.

Por mais alegres que parecessem, transmitiam tristeza. Embora sorrissem, escondiam a lamúria interior do vazio inconsciente.

O garoto não sabia o que fazer. Se falava sobre o tempo, a infância ou se perguntava se gostavam de matemática. Enquanto devaneava, um senhor fardado colocava compulsivamente biscoitos na boca e empurrava as rodas de sua cadeira para perto dele. Parou a seu lado e sem dizer nada e entrelaçou-lhe os dedos.

Com as mãos melecadas de bolacha mal mastigada, o rapaz não sentiu nojo ao segurá-las, apenas seu calor. Ficaram assim por horas, em silêncio.

Quando a Lua começava a mostrar seu brilho, o senhor, com dificuldades, balbuciou:

- Obr... obr... obrigado.

Observou-o tão frágil e inocente; a imponência passava longe daqueles olhos de ex-sargento do exército. Tanto conhecimento e bravura transformados em incapacidade da fala coerente.

Sentiu o carinho, a saudade de seus avós e a emoção do instante. Sentiu uma lágrima.

Relembrou das horas atrás na porta de entrada. Descobriu finalmente o que realmente sentia. Não era o medo de estar ali, e sim vergonha por ter pensado que aquilo eram apenas horas complementares.

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Há males por toda a parte. Alzheimer, Parkinson, João, José... O pior deles é o da ignorância.

O maior benefício em abraçar a sociedade, é aquecer a si mesmo. É ter consciência de que enxergar a vida, é envolver-se dela.

Polandesamente falando: e assim se vai a vida, sabiamente perdida, ou inconscientemente esquecida.

sábado, 9 de abril de 2011

Especial de Férias. Há lagoas (com) palavras. Day 7: The Gran Finale


A viagem ao próprio descobrimento intelectual chegou ao fim. Não desvendara pensares, apenas. Conhecera novas emoções, percepções sobre o mundo, as pessoas e a vida. Ficam experiências, se vão opiniões e a lembrança de que, mesmo no conturbado mar das diferenças e injustiças, o límpido palpitar de verdadeiros corações marcam a beleza do ser e do viver.

Polandesamente falando: day seven, complete. “Ai, que saudades do céu, do sal, do sol de Maceió...” O incrível deslumbre deixará saudade. Mas, falta mesmo, fazem os distantes, eternamente permanentes e veneráveis.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Especial de Férias. Há lagoas (com) palavras. Day 6: o “Velho Chico”


O velho Chico estava cansado. Trabalhara desde menino em prol de todos de Piaçabuçu. Fornecia peixes, caranguejos, água para as lavadeiras e economia para o estado. Era inestimável. Provia vida.

Apesar da idade avançada, seus serviços eram muito valorizados, e por isso, povos vizinhos queriam comprá-los.

Nas entrelinhas do contrato, a condição: teria que se mudar. Não para a esquina próxima ou o vilarejo seguinte, mas para a cidade longínqua.

Os interessados faziam de tudo para convencê-lo. Ofereceram-lhe ouro, diamantes, menos horas de expediente e eterno conforto.

Mas Chico não queria promessas luxuosas. Mesmo exausto pela sofrida vida, era feliz assim. Amava sua família e ao extremo sul pertencia. À proposta recusou sem pensar, e nunca se mudou.

Polandesamente falando: day six, complete. Deus realmente é brasileiro.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Especial de Férias. Há lagoas (com) palavras. Day 5: Lábia alagoana


Sentada confortavelmente, olhava pela janela do ônibus. O céu límpido, os coqueiros e a gostosa brisa levavam ao longe seus pensamentos. Foram interrompidos num instante.

- Licença, vou me sentar – disse o homem uniformizado.

- Ah, claro – respondeu a garota, olhando-o rapidamente e voltando a atenção para a estrada.

Não havia passado nem quatro minutos, quando:

- Oi, eu sou o Evandro, e você?

“Como se alguém houvesse perguntado.”

- Sandra – informou.

O alagoano tinha cor e brilho de quebra-queixo. Não parecia ser mais alto ou muito mais velho que ela.

- Vou fazer uma pergunta meio antiética... Quantos anos você tem?

“E bota antiético nisso, né, meu filho?”

- Quantos acha? – retrucou, tentando deixá-lo sem graça pela resposta que viria a seguir. A maioria sempre chutava para mais.

- Hum... Vejamos... Vinte e sete?

- Não – disse rindo. – Tenho vinte e quatro.

Fez de propósito, na esperança de envergonhá-lo, ou pelo menos enquietá-lo.

“Aí, garota!”

- E você veio fazer o que nessa cidade? – continuou, ignorando o plano secreto da moça.

Mesmo um pouco mais morena que o comum para uma paulistana, comparado ao cabra, parecia um sequilho. Provavelmente o fato delator de tal suposição.

- Férias - rebateu.

- Ah, que maravilha! Veio sozinha?

“Mas que incherido!”

Não sabia se dizia a verdade ao rapaz. Parecia confiável, era o que seus olhos diziam.

- Sim.

- Mas, por quê?

“Nossa, mas esse cara é folgado mesmo, hein! Não é da tua conta, ô cara de calango arretado!”

- Ah, ia vir com meus amigos, mas eles não conseguiram; então cá estou.

- Entendi. Bom, se precisar de companhia pra hoje à noite, adoraria conversar mais com você - disse, piscando um dos olhos.

...

Polandesamente falando: day five, complete. O que que a paulistana tem?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Especial de Férias. Há lagoas (com) palavras. Day 4: Miragem marítima?


As águas agitaram-se com o impacto. Não havia saltado de muito alto, mas outras ondas haviam se formado. A temperatura morna do mar era agradável. Olhou para baixo e reparou nos peixes ao redor; proporcionavam um colorido deslumbrante. Algas dançavam feito seu cabelo comprido.

Nunca fora fã do mar, mas o cenário encantador era apaixonante...

Polandesamente falando: day four, complete. Um paraíso real.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Especial de Férias. Há lagoas (com) palavras. Day 3: Mordendo a isca


Corria pela rua de paralelepípedos. O contato dos chinelos com o chão molhado a fazia escorregar. “Isso é hora de chover, ô São Pedro?”

O céu ameixa do lado sul lembrava o fim dos tempos. “Ainda bem que vou pro norte”. Continuou apressada; ainda faltavam 400 metros. “Que eu não caia agora de cara pro chão e não quebre o nariz. Se bem que se eu olhar pra ele de close posso pedir indenização. Quanto será que ganharia? O valor da minha altura, multiplicado pela velocidade da queda, hum... vezes 2? Não. No máximo mais pares da perigosa vestimenta.”

Para sua sorte - “Ou não. Tava começando a gostar de idéia de ter várias opções para desfilar no Coc’s Place (Shopping Interlagos)” –, chegou com o nariz perfeito e sem chuva. Aproximou-se de uma mesa de plástico e sentou-se. Ao redor, diversas árvores altas com pontos escuros e móveis. “Eita, diacho! Que raio é isso?”

Apertou os olhos tentando definir o que vira. Pequenos macacos habitavam seus galhos. Iam de um lado para outro, agitados.

- Macaquinho, bonitinho... Vem aqui, vem! – dizia o japonês, imitando voz de criança e estendendo a mão para o tronco da árvore.

“Que bobo! Só se for uma criança com possível problema mental.”

O animal, desconfiado, não se moveu. Olhou para o humano e depois para a banana. “Ah, rapaz. Palavra mágica!”

- Macaquinho quer banana? Ah, quer? O tio tem bananinha! Vem pegar! – continuou.

“Não. Macaco quer lasanha quatro queijos com bolinhos de arroz.”

Convencido pelo cheiro do alimento – “Alimento? Que nada! Foi pelo fenomenal discurso do senhor Miyagi!” -, aproximou-se e mordeu um dos pedaços num movimento rápido. Não demorou para todos acabarem.

O primata, ainda com o estômago insatisfeito, avançou novamente. Não encontrou a banana invisível e acabou mordendo o dedo do homem.

- Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! – Urrou de dor, soltando palavrões na língua dos “olhos fechados”.

“Cadê o ‘macaquinho bonitinho’ agora?”

Antes que pudesse fugir, o agarrou pelo rabo e retribuiu o carinho. Mordera a coxa do coitado.

- Viu como dói, desgraçado?

A garota contendo o riso, lembrou-se de um aviso que leu em um banheiro: “Subir no vaso pode causar graves acidentes.”

“Subir em vasos já não sei, mas alimentar macacos...”

Polandesamente falando: day three, complete. “Macacos me mordam!” ou deixem para o japonês.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Especial de Férias. Há lagoas (com) palavras. Day 2: Marca registrada


A xícara estava metade vazia. Apertou o botão. O filete marrom saía em gotas. “Legal!” Tentou a outra garrafa. “Não tem jeito. As forças do além amaldiçoaram as segundas-feiras de todos os estados deste país.” Nem pingos desta vez, apenas a tampa suja com o líquido branco habitava o recipiente. O guardião uniformizado da fome matinal veio salvá-la:

- Leite e café, moça?

“Não seria café com leite? Se inverter não faz sentido; seu criminoso da primeira refeição do dia! É como colocar a Julieta antes do Romeu. Não orna na pizza, meu bem, só na música da Daniela Mercury.”

- Sim, por favor – disse por fim, completando-a de leite e café (“se ele faz tanta questão...”)

Andou até sua mesa e depositou o pires sobre a toalha estampada. A harmonia das cores alegrava ainda mais o momento. Tomou um gole e mordiscou um pedaço de pão com manteiga de garrafa. “Hum, delícia!” Como gostava do café da manhã, especialmente o de hotéis. Eram pães, bolos, leite; tudo que se imagina, e naquela cidade não seria diferente. Ovos cozidos, queijo de coalho, purê de macaxeira com carne de sol, torta de aipim, tapioca feita na hora, suco de umbu, cajá, etc.

Coragem para experimentar até tinha, mas o estômago embrulhado, como presentes sensíveis envoltos em plástico-bolha, a fez optar pelo básico mesmo. Não comeu em seu ritmo de tartaruga, pois pouco tempo lhe restava antes da chegada do ônibus, mas o horário que tinha, permitiu-lhe apreciar os alimentos e a vista da piscina defronte.

Após terminar a refeição, sentou-se no sofá do hall. Era cedo, não passava das 7:10, mas o calor intensificava-se. Enquanto aguardava, via as notícias locais. Um grupo de delinqüentes havia explodido um caixa eletrônico no bairro vizinho. “Até aí, normal!” Em sua cidade natal acontecia com freqüência, mas não com fogos de artifício. “O quê? Os bandidos querem comemorar o crime antes mesmo de finalizá-lo? Ou estão em busca de uma rica explosão de alegria?”

- Bom dia! – gritou a mulher de amarelo, cortando seus pensamentos. - Vamos lá?

“Não. Vou ficar aqui esperando pela próxima aventura dos assaltantes. Talvez após outro roubo saiam voando em balões de gás hélio para quem sabe pegar uma prisão mais leve.”

- Vamos, claro! – respondeu a moça, entrando no veículo.

Não deu tempo para um dorme/acorda, muito menos daria para atravessar a Paulista. Haviam alcançado a parada “santa”. O movimento das rodas cessou dando vista à igreja no alto do morro. Era hora de descer.

- Óia o colarzinpusera! – dizia o vendedor ambulante aproximando-se da garota. - Compra o colarzin, puquê é abençoado!

“Hein? Abençoado?” Como se estivesse escutado, confirmou:

- É abençoado, moça. Tu pega as sementinha e joga de cima do morro depois que fizer 3 deseju. Tome aqui! – falou, puxando a mão da visitante e depositando as unidades vermelhas bem ao centro.

- Quanto é? – rebateu a jovem, enquanto guardava sua bênção na bolsa.

- É dois pu dez e a bênção di graça! Mas, pega logo que tá acabanu, visse?

“Tá acabando o quê? A bênção ou as bijus?”

O braço do rapaz estava repleto de correntes, pulseiras e anéis.

“Não tô precisando de nenhum milagre mesmo.”

- Acabando? Puxa... – falou ironicamente.

As bijuterias eram realmente muito bonitas e bem feitas. “E ainda vem com milagre!”

- Me dá um colar e uma pulseira, então.

Guardou as compras e voltou para o ônibus. Em sua janela passavam lagoas, coqueiros, favelas, mansões e o porto. Após contados 26 minutos, finalmente chegaram na praia dos Franceses.

Nas areias de escargot, dois senhores de quase 1,50 cm cada começaram a cantar. A famosa repente nordestina ganhava os mares e a barraca à sua frente. O casal da mesa ria com as frases rápidas – às vezes bobas, ainda assim, inteligentes - de humor.

(E essa moça aqui, que de Sumpaulo deu partida, é tão bonita que dá até ferida...)

Olhava o mar verde e o céu azul, e quando este ficou nublado, estranhou. A sombra de um homem tapava sua visão.

- Vamu fazê uma tatuagi? – questionou o vendedor de pele dourada e cabelos queimados.

A garota olhou para cima analisando o volumoso mostruário. “Será que...”

- Tem de panda? “Duvido!”

- Tenhu duas. Dêrra eu ti mostra – e começou a folhear a barsa dos pigmentos.

“Juuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuura?”

Incrédula, abriu um enorme sorriso. Era a primeira vez que havia encontrado “hena chinesa”. Olhou as opções e escolheu de prontidão. O rapaz copiou o desenho em um papel de seda e disse:

- Onde vai querer?

- Aqui nas costas.

O homem passou o esboço para a pele de sua cliente.

- Vai doer? – perguntou rindo.

- Ah, são só umas picadinhas de leve.

“Juuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuura? Mas hena não dói! Pode ir parando já, seu caranguejo satânico!”

Não sentiu incômodo algum, muito menos dor; afinal, estava fazendo sua primeira tatuagem. De mentira? Sim, mas pelo menos não era de pacote de salgadinhos.

- Prontu. Aqui tá sua lembrança diMaceió.

“Você não faz nem ideia, moço...”

Polandesamente falando: day two, complete. Quero uma tatoo (de panda) de verdade!